25.2.11

Caio, Lygia e 'O ovo apunhalado'

Leonardo M. Barreto
Gomes assina a capa
Em abril de 1975, Lygia Fagundes Telles escreveu o prefácio de O ovo apunhalado, de Caio Fernando Abreu, co-edição do IEL com a Editora Globo. Um momento ímpar na história da nossa literatura, que merece ser lido e relido sempre.

          O que me inquieta e fascina nos contos de Caio Fernando Abreu é essa loucura lúcida, essa magia de encantador de serpentes que, despojado e limpo, vai tocando sua flauta e as pessoas vão se aproximando de todo aquele ritual aparentemente simples, mas terrível porque revelador de um denso mundo de sofrimento. De piedade. De amor.




      Mundo de uma desesperada busca, onde as palavras se procuram no escuro e no silêncio como mãos que raramente (tão raramente, meu Deus) se encontram e se separam em meio do vazio. Da solidão. “O pensamento verte sangue”, diz o poeta. É desse sangue que essas páginas ficam impregnadas — mas tão disfarçadamente, tão ambiguamente: por pudor, talvez, Caio Fernando Abreu disfarça, escamoteia através das personagens (sempre anti-heróis) a “dor que realmente sente”. O medo, a perplexidade, a cólera, a ironia, o fervor — o sentimento do homem caça e caçador é redescoberto neste corpo-a-corpo de criador e criação. Sim, suas personagens são os anti-herois, mas com eles Caio não constroi o anticonto, tão ao gosto de seus companheiros de geração. Revolucionário sempre. Original sempre, mas sem se preocupar com modismos (importados ou não) que tentam impressionar um público que, de resto, já não se impressiona com nada. Não escreve o antitexto, mas O TEXTO que reabilita e renova o gênero. Caio Fernando Abreu assume a emoção. 

        Emoção que é vertida para uma linguagem que em alguns momentos atinge a rara plenitude próxima de um estado de graça. Linguagem que o coloca na família dos possessos (que já nos deu um Van Gogh, um Dostoiévski, um Orson Welles), cultivadores não só da “paixão da linguagem”, na expressão de Octavio Paz, mas também da “linguagem da paixão”.

         Gostaria de destacar aqui os contos que mais amei deste singular livro do moço gaúcho que um dia me escreveu uma carta: Os crepúsculos têm sido lindos. Passei o melhor verão da minha vida, ganhei um gatinho chamado Onírico Saturno (ele é Capricórnio), amei muito, fiz ioga à beira-mar. Enfim, tenho agradecido por estar vivo e ter andado por todos os lugares onde andei e ter vivido tudo o que vivi e ser exatamente como sou. 

Caio Fernando Abreu
       Apontar este ou aquele conto? Mas se vejo cada um dos textos que formam O ovo apunhalado como peças de um jogo, destacáveis e curiosamente inseparáveis na sua alquimia mais profunda, cada qual trazendo sua parcela de realidade e sonho, rotina e poética magia — vida e desvida com seu mistério e sua revelação.

       Quando nos seminários de literatura os teóricos pedantes acabam por condenar a palavra, minha vontade é simplesmente mostrar-lhes um livro como este. Provar-lhes a atualidade da desacreditada palavra com a própria palavra, quando a serviço de uma técnica rica de recursos. Aliada a uma imaginação cintilante.


LYGIA FAGUNDES TELLES
São Paulo, abril de 1975