9.7.15

Carlos von Koseritz: novelas



A seguir, reproduzimos um trecho da novela "Um drama no mar", de Carlos von Koseritz (1830-1890), do livro Carlos von Koseritz: novelas, publicado pelo IEL em 2014, com organização de Artur Alarcon Vaz e Juliane Cardozo de Mello. A obra reúne escritos do início da carreira de Koseritz - escritor, jornalista, parlamentar e figura pública influente no Rio Grande do Sul durante a segunda metade do século XIX. Alguns dos textos incluídos no livro não eram objeto de reedição havia mais de um século e eram dados como perdidos ou desaparecidos. A edição foi produzida a partir de originais redescobertos ao longo da última década em pesquisas da Fundação Universidade Federal do Rio Grande (FURG).



"Julgais, leitores, que vou contar-vos alguma dessas novelas que nascem no cérebro do escritor e cujas peripécias são meras invenções, que nada contêm de real?

Não; o que vou narrar-vos tem um fundo de verdade; os fatos se deram, e deram-se bem perto de nossas praias, deram-se há bem pouco tempo; ainda todos estremecem ao recordarem-se da primeira notícia desses horríveis crimes, que circulou pela nossa pacífica cidade.

Os fatos são reais; alguns aumentos, algumas liberdades são perdoáveis por certo ao escritor, que se vê obrigado a revestir o descarnado esqueleto da horrível realidade, como os ouropéis de fantasia.

Nesse horripilante drama, que durante dias formou o assunto de todas as conversações, houve mistérios ocultos, abismos, que não foi permitido perscrutar ao público, mas que pode o escritor utilizar-se deles para colorir a sua narração.

Nem tudo quanto vou narrar-vos é constatado pelos fatos, nem tudo é real; muitas vezes, abandonarei as rédeas à minha fantasia, mas muitas outras cenas são a fiel pintura do ocorrido, e vós o sabeis.

Impressionam-me esses sombrios dramas que se passam por entre as gigantescas vagas do oceano, naquela vasta solidão tão animada pelos grandes espetáculos da natureza; impressionam-me tanto mais, quanto conheço o oceano e as emoções que ele desperta, quanto amo aquela vida rude e perigosa, de que por minha vez já fiz profissão.

Só quem conhece o oceano pode descrevê-lo; só quem viveu no meio da borrasca, só quem ouviu o roncar da tempestade, pode pintá-la; as outras cores são pálidas e desbotadas; a palavra do poeta, o pincel do pintor, só acham vida na realidade; ante os grandes espetáculos da natureza, a imaginação perde a sua elasticidade, a fantasia, as suas brilhantes cores.

Só o marítimo descreve o mar, só o marítimo conhece-lhe os segredos, só ele sabe compreender-lhe as emoções.


E, pois, embora o diário lidar da imprensa periódica me tenha gasto a imaginação, tenha cortado as asas à minha fantasia, embora a realidade da vida material tenha, uma por uma, destruído as minhas ilusões poéticas da primeira juventude, em que me extasiava a vista de verdejante prado, de argênteo riacho, o doce trinar do rouxinol; embora esse santo tempo de enlevos poéticos já vá longe, digo, ainda me fala à alma a majestade do oceano e, onde a doce poesia já não acha eco, o ribombar da tempestade ainda desperta simpatias, ainda me inspira.


Vou narrar-vos um drama do mar, uma daquelas horríveis peripécias, que parecem exclusiva propriedade da fantasia do poeta, e que, contudo, nada mais são que a cruel realidade."